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Quem Fabrica o Passado Controla o Presente

Publicado no Poder360 no dia 27/6/2026


A imagem gerada por inteligência artificial não parte do mundo visível - ela resulta de uma espécie de memória coletiva humana, e produz algo que nunca existiu nem jamais existirá. Para entender o que isso significa, é preciso recuar no tempo, e percorrer a genealogia de rupturas que nos trouxe até aqui.


O método científico de observar a natureza e buscar padrões começou na aurora da humanidade e, em especial, na arte de pintar cavernas. Foram milhares de anos durante os quais o ser humano se dedicou a reproduzir, com precisão cada vez maior, aquilo que via com seus próprios olhos.


O surgimento da fotografia, no século XIX, alterou definitivamente esse percurso. Ao registrar, com extraordinária fidelidade, um microssegundo do tempo que jamais se repetiria, a fotografia liberou as artes plásticas da obrigação da semelhança, pois já não era mais necessário pintar o que se via. Foi dessa ruptura que nasceram os movimentos modernistas e contemporâneos. A câmera assumiu o papel de testemunha fiel do real, e deu ao pincel sua liberdade para abstrair.


No entanto, a ruptura que levou milênios para acontecer com as artes plásticas, ocorreu em menos de duzentos anos com a própria fotografia. O celular potencializou a fotografia ao torná-la um ato banal do cotidiano, fazendo de cada pessoa um registrador do momento histórico. A artista brasileira Rosangela Rennó, em sua série Última Foto de 2006, coletou câmeras analógicas descartadas durante a migração em massa para o digital, revelou o último rolo que ainda dormia dentro de cada uma delas, e expôs a fotografia final ao lado da câmera que a produziu. O gesto é simples e devastador: aquelas imagens, desfocadas, banais, às vezes completamente irreconhecíveis, não documentaram nada além do fim de uma função. Marcaram o instante em que a câmera acaba e a fotografia digital é incorporada ao corpo humano.


O que abalou a fotografia como prova da verdade, porém, foi algo mais sutil e devastador: a capacidade crescente de manipular e fabricar imagens de forma indistinguível da realidade. Com o Photoshop, em 1990, abriu-se a era da adulteração imperceptível. Depois vieram os “filtros” e, mais recentemente, o deepfake e a inteligência artificial generativa. Essas 2 últimas inovações representaram uma ruptura tectônica, ao eliminarem a captura da imagem do mundo real, criando-a a partir do “zero”. A fotografia não apenas perdeu sua autoridade de testemunho, como foi absorvida por um ecossistema onde a imagem pode nascer sem que nenhum momento histórico tenha existido.


A humanidade perdeu uma âncora. Por milênios, o registro visual serviu como uma evidência, imperfeita e manipulável, mas ancorada em algum momento que efetivamente existiu. As inferências que fazemos das pinturas de Lascaux ou Altamira, as análises da vida cotidiana nos quadros da escola flamenga ou de Goya, os desenhos dos naturalistas que cruzaram o planeta registrando fauna e flora, tudo isso formou a biblioteca do conhecimento humano.


Em 2002 entrei na primeira loja da Apple no Soho de Nova York. Eu era Conselheiro das Lojas Americanas, e senti, fisicamente, o varejo mudar debaixo dos meus pés, naquele chão de madeira clara. Tive a mesma sensação de ruptura há 2 semanas, ao visitar a exibição “Strange Rules” no Palazzo Diedo em Veneza. A exposição “Strange Rules” reúne artistas que trabalham exatamente na fronteira do impacto das tecnologias emergentes sobre a imaginação coletiva. O tema não poderia ser mais urgente.


O que nos resta não é uma “âncora” nova, mas um novo contrato com a incerteza. A pergunta real não é filosófica, é sobre Poder. Quem controlar os modelos que geram as imagens, controlará a memória coletiva que os alimenta e, portanto, o que parecerá ter acontecido.


Já estamos vivendo isso. Em março de 2022, um deepfake de Volodymyr Zelensky circulou pedindo aos soldados ucranianos que baixassem as armas. A guerra real e a imagem falsa existiam simultaneamente. Ambas matavam.


A questão não é se conseguiremos conviver com imagens sem origem. As perguntas que não podemos calar, que obrigatoriamente deveremos nos fazer são: Quem decide o que “parece” ter acontecido? Para quem essas imagens se destinam? Qual a responsabilidade de quem as divulga?


Nosso futuro depende dessas respostas.”



 
 
 

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