Por um Brasil que busque seus "Moonshots"
- Fersen Lamas Lambranho
- há 4 dias
- 4 min de leitura
Publicado no Neofeed em 07 de julho de 2026
Guy Perelmuter, gestor do mais tradicional fund of funds de deep tech no Brasil, o GRIDS Capital, resume o espírito do capital de risco em uma sentença: "Deep Tech é o único lugar onde o retorno financeiro e o impacto civilizatório caminham juntos."
A frase é boa porque é exata. Um país no qual não existem incentivos para que suas Universidades se tornem “berços de negócios” que alavancam seus ativos naturais, perde simultaneamente em varias dimensões: perde dinheiro, cérebros e futuro. O Brasil está perdendo em todas.
Este mês estive em Zurique com diversos empreendedores de biotech. Entre vários tópicos, comemoravam o IPO de uma empresa de oncologia, cujo fundador me disse: "agora vou buscar 2 bilhões de dólares para começar um novo negócio. Quero resolver um problema considerado impossível, pois só assim vou na busca de fazer um Moonshot."
Reconheci ali, no seu olhar, a força da capacidade do ser humano de achar soluções. Experimentei esse espírito no início da internet nos anos 90, quando parecia que “tudo que era sólido desmanchava no ar”, e surgiram fenômenos como Mercado Livre e Amazon, só para citar o segmento em que eu operava. Esse é o “espírito” que habita os hubs de tecnologia dos países mais desenvolvidos.
Em uma década, o percentual de venture capital global investido em Deep Techs - empresas que atuam com tecnologias científicas “de ponta” - passou de 10% para 20% do volume total de recursos. Em 2021, entraram US$ 160 bilhões no setor, e os analistas projetam trilhões de dólares até 2030.
Há uma corrida tecnológica em curso, e 3 polos a lideram: (1) os EUA, com DARPA, MIT e outros; (2) a China, com capital de Estado e velocidade industrial; e (3) a Europa, tentando “ficar no jogo”, com regulação própria unida às suas instituições de pesquisas.
Essa corrida tecnológica já deixou de ser exclusividade do capital de risco privado, e chegou ao mercado de Companhias Abertas. Em 2026, no difícil mercado público ou de SPACs dos EUA, os temas que mais despertam interesse incluem “Deep Techs” de defesa, baterias, biotech e exploração espacial, mesmo que as empresas se encontrem em estágios bem iniciais de operação.
O Brasil abriga cerca de 20% de todas as espécies conhecidas do planeta. Juntos, a Amazônia e o Cerrado concentram o maior repositório de compostos bioativos do mundo, com aplicações diretas em Biotech, farmacologia, novos materiais e defensivos agrícolas. Complementando o quadro, no subsolo brasileiro encontra-se a segunda maior reserva de terras raras do planeta, um material crítico para baterias de nova geração e supercondutores.
Enquanto o Brasil debate marcos regulatórios, outros países agem rápido. A China, nos últimos 15 anos, estruturou políticas sistemáticas que permitem transformar biodiversidade em propriedade intelectual, com bioprospecção integrada à agenda industrial.
O Brasil aprovou a Lei 13.123/2015 com o objetivo de disciplinar o acesso ao patrimônio genético. Porém, a burocracia, a insegurança jurídica para pesquisadores, assim como a dificuldade de operacionalização dessa Lei por startups, não permitem que a mesma se torne uma alavanca para o desenvolvimento. Segundo estudo de 2025 do CPI/PUC-Rio e Amazônia 2030, coordenado por Juliano Assunção e Beto Veríssimo, se o Plano Nacional de Desenvolvimento de Bioeconomia (PNDBio), por exemplo, for implementado com seriedade, estima-se que, em 30 anos, até US$ 784 bilhões possam ser gerados via restauração de carbono pelo mecanismo RDM (Mecanismo de Reversão do Desmatamento). O potencial existe. O que falta é política pública funcionando.
A ciência brasileira, apesar dos pesares, desenvolve pesquisas, mas licencia pouco. Nos casos em que tais pesquisas tentam sair da academia para se transformarem em negócios, encontram dificuldades como no exemplo abaixo:
A Pluricell Biotech, pioneira na area de medicina regenerativa, foi criada em 2014 por pesquisadores da USP, passou quase uma década transformando pesquisa acadêmica em terapias celulares, e encerrou suas atividades sem conseguir capital suficiente para chegar ao mercado. Em 2019, recebeu US$ 1 milhão da empresa farmacêutica Libbs para seus programa de medicina regenerativa e, em 2021, mais R$ 2 milhões de investidores privados. Apesar dos avanços científicos e das parcerias, os recursos não foram suficientes para sustentar o longo ciclo de desenvolvimento de produtos típicos do setor.
O Brasil investe 1,19% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, muito abaixo dos 4,9% e 3,45% investidos por Israel e EUA, respectivamente. A evasão de talentos persiste como variável estrutural, e o capital “paciente”, aquele disposto a atravessar o longo ciclo de 5 a 15 anos que separa o laboratório do mercado, sem exigir liquidez prematura, permanece escasso. Fundos como SP Ventures, Pitanga, KPTL e Fundepar constroem presença relevante, mas o volume agregado ainda está distante do necessário para absorver o pipeline científico existente.
Esse problema demanda cada vez mais iniciativas no Brasil que promovam o ponto de contato entre a pesquisa brasileira e o capital “paciente”. Não é rara a realização de eventos com esse objetivo em países desenvolvidos, como França, Finlândia e Estados Unidos. No Brasil, o Deep Tech Summit, criado pela Emerge no Complexo Inova USP, ganhou escala e aos poucos tem cumprido esse papel. A próxima edição no mês de agosto prevê cerca de 2,5 mil participantes vindo de apenas 450 pessoas em 2023, alçando o evento no terceiro maior do mundo voltado para deep techs, atrás apenas do Hello Tomorrow Global Summit, em Amsterdam, que reuniu 3,2 mil participantes na última edição, e do Deep Tech Momentum, em Berlim, com 3 mil. Um evento brasileiro competindo nessa liga não é acidente. Fomentar iniciativas do gênero pode ser um indicador de que é possível transformar o Brasil que só produz ciência em um Brasil que converte ciência em valor econômico.
O Brasil tem os cientistas. Tem os recursos naturais . Falta apostar que podemos gerar Moonshots.




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