O empreendedor judeu que nos pariu


A primeira vez que fui a Wall Street, fiquei espantado ao encontrar, no antigo cemitério, tumbas com o nome - em português - de judeus do século XVII.


Desde então tenho me interessado e lido bastante sobre o tema e, ao longo do tempo, encontrei livros muito interessantes sobre o assunto. Alguns deles seriam:


- “The Island at the Center of the World: The Epic Story of Dutch Manhattan and the Forgotten Colony That Shaped America” é um livro de não ficção, de 2005, escrito pelo jornalista americano Russell Shorto;


- “City of a Dreams: History of Nieuw Amsterdan and Early Manhattan”, de Bervly Swerling, publicado em 2001.


Ambos estão traduzidos para o português e, juntos, permitem entender razoavelmente bem como Nova York foi formada. Encontramos, nesses livros, menções aos judeus brasileiros que, no século XXVII, também participaram da construção da Cidade do Recife, durante o período da Companhia das Índias na ocupação holandesa.


Recife, naquela ocasião, não só tinha as 2 únicas sinagogas das Americas, como possuía scholars relevantes no mundo judaico.


O tema da contribuição destes judeus, na construção da cidade de NY, é polêmico. Porém, durante o governo de Obama, a Casa Branca soltou uma declaração, no dia 01 de maio de 2012:


“Há 358 anos, um grupo de 23 refugiados judeus fugiu do Recife, Brasil, acossado pela intolerância e opressão... Quando esses homens, mulheres e crianças desembarcaram em Nova Amsterdam - hoje cidade de Nova York ... sementes de uma tradição de liberdade e oportunidade que uniria para sempre suas histórias à história americana.”


Neste momento, o brilhante jornalista, escritor e cearense Lira Neto publicou o livro: “Arrancados da Terra”, no qual aborda, de forma competente, todo o processo de expulsão dos judeus da Peninsula Ibérica, que acabou por alimentar, com cérebros e capital, o mercantilismo Holandês.


O casamento da tradição judaica com o calvinismo não aconteceu sem percalços, e o Novo Mundo foi, de certa medida, uma alternativa ambicionada para a nação de Moises. O Brasil do açúcar e do pau-Brasil, uma terra imensa, parecia ser a melhor opção para gerar riqueza e prover liberdade. No entanto, depois de tantas desvalias nos trópicos , foi na América do Norte que os judeus, inclusive oriundos do Brasil , encontraram a oportunidade de prosperar e gozar de uma maior liberdade.


Com sua obra, Lira Neto completa essa trilogia - que recomendo, no sentido de dar clareza, em 360 graus, a respeito de como cérebros e capital circularam pelo Atlântico, definindo o mundo que vivemos hoje.


Por que isso é importante? Não sou judeu. Imagino que vc deve estar se perguntando. Entendo que é relevante ver quanto desta historia foi uma disputa economica muito mais relevante do que uma questão religiosa.


Na semana passada, manchetes no Brasil falaram de empresários que compraram e se vacinaram de forma clandestina em Belo Horizonte. Por que empresários? Não seriam apenas donos de cias de ônibus?


Não faltaram artigos criticando a carta dos economistas e empresários sobre a forma que o governo brasileiro tem tratado a pandemia. Essas críticas almejam identificar os empresários como a base de sustentação arrependida do governo eleito em 2018. Não teríamos, em todas as classes de brasileiros, algumas pessoas arrependidas? Seria a maioria dos empresários apoiadores do atual presidente? Não acredito.


Nos julgamentos dos escândalos do mensalão e da lava-jato da Petrobras, vimos com satisfação a prisão de empreiteiros que corromperam agentes públicos. Porém, não tivemos a indignação suficiente para levarmos esses agentes públicos ao mesmo destino - afinal, a corrupção existe dos dois lados da mesa.


Independente desta forma desequilibrada de punição, nao seriam esses agentes de corrupção mais bem definidos como grandes empreiteiros ? Porque classificar genericamente como empresários?


Embora, neste período, a história dos judeus no Atlântico seja marcada por perseguições, sabemos também que são eles os maiores promotores do empreendedorismo e da alocação eficiente de capital nas Américas.


Entender essa história talvez nos traga a consciência de que não podemos depreciar o termo “empresário”, usando-o para qualificar atos de desonestidade e banditismo. Lembrando sempre que as palavras têm poder.


Entender essa história talvez nos ajude a perceber onde nos perdemos, e qual seria o caminho para o futuro. Não existe possibilidade de desenvolvimento de uma Nação sem a força empreendedora de empresários.


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