O DIREITO DE RENASCER


Lembro bem de quando, com meus filhos ainda bebês, eu sentava na frente de um computador, tentando acessar a rede discada com uma senha da Embratel, e ouvia um som assim: “ioonhionom...”


Pois bem. Meus filhos são a primeira geração que nasceu com acesso a celular, internet e etc. Quando eles tinham 7 e 9 anos, eu costumava lhes dizer, repetidamente: “tudo que vcs escreverem no computador e na internet é público. Logo, tomem muito cuidado!”. Que coisa terrível ter que dizer isso para uma criança. Porém, como lidar com o medo e quase desespero de pais, que temiam por seus filhos?


Fomos a última geração com direito a errar livremente, ao longo da vida, sem deixar uma cicatriz para sempre. O erro é parte fundamental do conceito da humanidade. Uma pessoa de sucesso, na minha definição, é aquela cujos acertos superam os erros e, principalmente, aquela que sabe levantar toda vez que cai.


Meus filhos foram a primeira geração que vc via trancada no quarto e, ao abrir a porta, acontecia o seguinte diálogo:


“- Vc não vai sair e fazer algo sábado a noite?

- Pai, estou aqui com 600 amigos, conversando...”


A minha geração foi a primeira a enfrentar o drama de ter os filhos em casa, protegidos dos assaltos, estupros e outros, mas sujeitos a tudo de pior no planeta, através da “darkweb”.


Certo dia, meus filhos me disseram: “Pai, esquece, não existe privacidade, e é assim”.


Nesse dia, entendi que esse era o preço a pagar para estarmos conectados com o planeta. Assumi isso como uma verdade, e compreendi que o conceito de privacidade morrerá com a minha geração.


O STF decidiu, nesta semana, sobre o “direito ao esquecimento”. Não é uma questão simples. Afinal, uma pessoa deveria ter o direito de que seu passado não a assombrasse para todo o sempre.


Um assassino, depois de 30 anos de cadeia, tem o direito a tentar uma vida normal? Um jovem que, aos 16 anos, foi preso por roubo de caixa eletrônica, tem o direito de, no futuro, ser CEO do banco que roubou? Uma jovem que fez um comentário incorreto em um dia infeliz? Imagino que todos acreditamos que sim. Isso falaria em favor do esquecimento.


O esquecimento, porém, não deveria impedir que a sociedade fosse capaz de voltar no tempo, para entender e interpretar corretamente o passado. E isso fala contra o esquecimento.


O tema torna-se mais crítico por conta da digitalização. Quando tínhamos apenas jornal impresso (ou similar), o esquecimento era garantido - jornal durava um dia e, embora ficasse guardado no Arquivo Nacional, quem quisesse consultar números antigos precisaria ter uma razão muito forte, que justificasse arcar com um custo razoável.


Com o advento da digitalização, tudo está disponível ao toque de um dedo - inclusive falsidades, fofocas, maldade humana, revelações, ...


O problema está posto. A geração dos meus filhos, que já se acostumou com a falta de privacidade, terá de descobrir a forma de conviver com esse problema.


A geração dos “Millennials” tem a obrigação moral de resolver o dilema entre não se permitir que o passado do ser humano se apague, em contrapartida com seu direito inalienável de recomeçar, de errar / pagar / corrigir.


Não existe crescimento possível sem erros. Não existe evolução com medo. Não existe humanidade sem o advento do perdão.


O STF decidiu pelo “não esquecimento” - o que apoio. Porém, fica o dever de casa para as novas gerações: achar um novo caminho, dentro do mundo digital, para que haja um balanceamento justo.


Meus netos merecem viver em um mundo onde habitem seres humanos, e que crescer / evoluir continuamente seja ainda a razão maior da nossa curta existência.



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