Narciso de ferias

Era uma noite chuvosa de um sábado no final de 1968.

Meu pai e um amigo me levaram de carro para comprar pizzas naquelas embalagens antigas de papelão amarelado que passava um calor e um cheiro delicioso.

Lembro que eles falaram muito baixo como se alguém alem de mim estivesse no carro:


O DOPS prendeu Caetano e Gilberto Gil inclusive já rasparam a cabeça deles.


Aquilo foi para mim ,uma criança de 7anos, uma coisa imensa e apavorante mesmo que no radio estivesse tocando Hey Jude que sempre traz paz ao coração .

O documentário “Narciso em Ferias “ disponível no GloboPlay fala de quem viveu esse momento de dentro da cadeia e tem a sensibilidade de permitir que personagem fale, fale e fale as coisas do dia-dia daquele momento.

Nada é mais revelador do os detalhes de qualquer circunstancia absurda que se passa na vida. O que essas pessoas viveram naquele momento na mão do Estado não é diferente do que outros já passaram em momentos anteriores da Historia como Graciliano Ramos no tempo de Getulio e outros tantos casos em mais de 500 anos do Brasil.


Quando se é preso uma vez é preso para sempre.


Momentos da Historia em que o Estado se volta contra as liberdades Individuais quem vai para a prisão é a sociedade como um todo e mesmo uma criança fica marcada para sempre.

Caetano e Gil foram para o exílio em Londres até porque nada tinham feito de errado mas eram provas vivas da incompetência de quem os prendeu.

Passados tantos anos quando ando pela cidade aonde moro sempre me vem a mente a letra de London, London:


I'm wandering round and round nowhere to go

I'm lonely in London, London is lovely so

I cross the streets without fear

Everybody keeps the way clear

I know, I know no one here to say hello

I know they keep the way clear

I am lonely in London without fear

I'm wandering round and round here nowhere to go


Naqueles tempos da minha infância e adolescência ouvíamos musicas buscando as entrelinhas, as metáforas, as mensagens cifradas e sonhávamos com a liberdade de expressão.

Independente de vc gostar ou não de Caetano como pessoa ou cantor vale ver o documentário com a curiosidade antropológica abstraindo do personagem mas focando no que são as sensações humanas.

O mundo gira e como disse Cazuza :


Eu vi o futuro repetir o passado.

Eu vi um museu de grandes novidades.

O tempo não para.


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