Hoje, Chacrinha virou Roberto Marinho

Eu não tinha 4 anos quando fiz parte do grupo de crianças do primeiro programa infantil da Globo, chamado “Uni Du Ni Tê da tia Fernanda”.

Aqueles estúdios de madeira, no calor do Rio, eram um inferno para mim. Não suportei muito tempo, porque queria era estar em casa, assistindo TV.

Fui da primeira geração criada à base de TV, e não consigo ver grande diferença da minha infância, grudado na tela, com a dos meus filhos, 30 anos depois, conectados em internet ou no celular.

Cresci vendo o meu país se unir via Embratel, os sotaques e vocabulários regionais convergirem, no 'continente' brasileiro, através das novelas, e os bordões humorísticos se espalharem nas bocas de todos - como hoje os memes se espalham por whatsapp. Acima de tudo, o mundo estava ali na minha frente. Assim vi o homem chegar na lua, e as 2 torres caírem ao vivo.

Nós nos acostumamos a receber informação "pret-a-porter", com a crença de que a fonte era confiável e minimamente responsável. A TV tem, no jornalismo, a sua origem. Portanto, possui uma ética e rigor que, mesmo não perfeitos ou, às vezes, não tão honestos, pelo menos ancoram-se em uma tradição que impõem limites.

O Youtube surgiu há 15 anos, e forneceu o ferramental para uma grande Revolução, na qual qualquer pessoa é capaz de produzir um vídeo, e jogá-lo no mundo. O beneficio do Youtube, como uma forma libertária, é incontestável, porque possibilitou o ato de criar para todos, e permitiu que cada um de nós faça a sua curadoria (a própria grade) em todas as dimensões.

O meu amigo Marcos Wettreich, fundador do Ibest, de imediato percebeu uma oportunidade: os vídeos do Youtube precisavam de algum mecanismo de lógica para a busca, de modo que as pessoas pudessem criar sua própria grade, e assim Marcos fundou o Weshow, com dinheiro de pessoas próximas como eu. Porém, o Youtube logo criou o mecanismo IA para dar as sugestões, enterrando nossos sonhos de fazer a maior plataforma de conteúdo do mundo.

O problema do YouTube reside no mecanismo de sugestão, que tenta oferecer vídeos que devem ser do seu gosto. O que, em princípio, é uma boa causa, tem o efeito colateral de fazer com que vc acesse cada vez menos contrapontos ao seu ponto de vista , o que leva a uma menor exposição a posições que estimulem o debate, e desafiem suas crenças.

Além disso, diferente da TV, no Youtube não existe necessariamente o conceito do jornalismo clássico, o que o sujeita a notícias falsas, inverdades, boatos não comprovados, ... O efeito colateral mais dramático está no fato de termos 8 bilhões de pessoas que estão acostumadas com o conceito da TV, e ficam vulneráveis diante do canhão do Youtube, sem anticorpos contra a pilantragem e má intenções.

Assis Chateaubriand ( dono do maior império jornalístico de nossa historia) inaugurou a TV Tupi em 1950 , sem espectadores ou programação, e precisou importar e vender aparelhos de televisão para criar clientes. Quando descrevi a minha aventura de ator mirim e sua precariedade, eram apenas 15 anos desde o início da TV no Brasil. Portanto, o Youtube está ainda engatinhando, assim como a TV em 1965. Com o tempo, soluções surgirão para resolver os efeitos colaterais, e essas soluções serão oportunidades de negócios.

No video abaixo, Joao Pedro Paes Leme, que deixou a Rede Globo depois de 20 anos para se associar ao YouTuber Felipe Neto e seus 40 milhões de seguidores, explica como esse novo mundo está se reorganizando. Ele pontua o fato de que a Revolução está ainda começando, e descortinando oportunidades para cada indivíduo vender seu peixe, dando voz e imagem a quem quiser participar deste do Grande Camelódromo Global.

Para deixar claro, arrisco dizer que, no mundo atual, o Dr Roberto Marinho não seria páreo para o Chacrinha, como o homem mais poderoso do país.




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