Gal e Boldrin juntos, em um dia de novembro…

Para os padrões do final dos anos 60s, Gal era uma menina bochechuda, com um cabelo cheio que, como diziam dos “hippies”, parecia um “ninho de rato”. A voz estridente e forte cortava, como uma faca, os meus ouvidos de menino. O refrão que dizia: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte” é a minha mais antiga memória de um grito de protesto. Gal Costa, com roupas psicodélicas, e sem se encaixar no padrão de beleza da época, representava uma geração que buscava integrar o Brasil com a modernidade.


Gal sempre significou contemporaneidade. Assistimos Gal protesto, Gal sensual de Gabriela e da Playboy, Gal Índia, Gal folhetim, Gal carnaval, Gal Fatal e tantas mais. Enquanto Nara, ao tocar violão, comportadamente cruzava suas bonitas pernas, Gal tocava violão de pernas abertas.

Ninguém, além de Gal, poderia disputar uma “briga de galo” vocal com Elis Regina.


Gal faleceu no último dia 9 de novembro. A primeira morte dos “Doces Bárbaros” que, por décadas, portaram-se nos portões da caretice máxima, que insiste em ocupar os tristes trópicos.


No mesmo dia 9 de novembro faleceu Rolando Boldrin que, por décadas, dedicou-se a contar “causos”, e relembrar o Brasil profundo do interior e da alma caipira. Boldrin tinha uma forma muito especial para entrevistar pessoas, tirando delas o melhor da sua memória afetiva. Rolando fazia de forma bonita e poética a releitura do passado.


Muito interessante que, no dia 9 de novembro de 2022, o Brasil perdesse duas figuras tão simbólicas e queridas, enquanto que opostas: um era côncavo, e o outro convexo. Num mesmo dia, nosso país foi privado de 2 pessoas que, juntas, “explicavam” o Brasil como um todo. Gal e Boldrin não tinham qualquer ponto de contato, mas eram genuinamente brasileiros.


Ambos deixam suas vidas vendo um país que saiu dividido da eleição mais apaixonada e visceral da nossa história, na qual a vanguarda enfrentou a idealização do passado. Nestas eleições, fomos Gal contra Boldrin. No entanto, isso não é justo de se dizer, porque não faz sentido vê-los em lados opostos - afinal, jamais imaginaríamos que eles pudessem brigar. Gal e Boldrin amavam o Brasil, apesar de suas diferenças claras. Como um paradoxo, ambos simbolizavam, em igual medida, a nossa pluralidade.


Como se não bastasse tanta tristeza num único dia, ainda em 9 de novembro o ministério da defesa divulgou um controverso e dúbio documento sobre a lisura das eleições. Com uma linguagem bizantina, o relatório não deixava claro, sem nenhuma sombra de dúvidas, que as urnas eleitorais brasileiras não apresentam fraude. A impropriedade do documento foi tal que permitiu que os progressistas lessem que estava tudo resolvido, e os manifestantes, vivandeiros de porta de quartel, entendessem que a “luta” continua.


Um Brasil dividido entre a canção “Vide Vida Marvada” e “Vapor Barato”. Um Brasil que, embora não tenha um outro caminho, recusa-se a juntar Gal e Boldrin na mesma festa, na mesma roda e na mesma prosa. A esperança equilibrista é imaginar Gal cantando Caymmi ao lado de Boldrin no Som Brasil.



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