Fotografia e a arte de roubar almas


A cada 5 anos assisto a trilogia do Poderoso Chefão. Todas as vezes aprendo algo novo, assim como percebo, em algumas cenas, pistas e sinais que não tinha percebido ainda.


A riqueza da vida está na sutileza e em desvendá-las. Cresci num país em que livros, jornais, filmes e músicas eram cifrados, por serem censurados, e o grande "barato" era ler as entrelinhas.


Parei nos últimos dias para folhear livros de fotógrafos como Henri Cartier-Bresson, Robert Capa e Ansel Adams. Impressionante a força de uma fotografia, e como se pode dizer tudo com um simples apertar de botão. Imprimir para todo o sempre um sentimento, um desespero e uma alegria.

Imagens como o beijo do marinheiro na enfermeira na Times Square, no dia da Vitória na II Guerra Mundial, a menina nua ferida de napalm no Vietnam, o soldado da Falange sendo atingido na cabeça durante a Guerra Civil Espanhola, e tantas outras que, com seu impacto, moveram governos e despertaram multidões.


Os grandes fotógrafos têm uma habilidade de entrar em consonância com o que fotografam. Grandes fotógrafos usam o preto e branco com frequência. Acho que, ao "descolorirem" as imagens, buscam se aproximar da essência do objeto fotografado - afinal, sabemos que as cores não existem de verdade, e que o reflexo da luz sobre a superfície é que cria o efeito de cor em nossas retinas.


A fotografia é parte relevante de nossas vidas, tanto que os aparelhos celulares tornaram-se, na verdade, máquinas fotográficas que permitem comunicação. Por isso que, no "pitch" de venda, a evolução da capacidade de fotografar é tao enfatizada.


Eu, particularmente, percebo como é diferente fotografar alguém que amo. Muitas vezes, quando quero expressar um sentimento, mando uma simples foto no lugar de texto.

O fotógrafo que ama o que faz pode fazer de seu trabalho uma obra única. Orlando Brito, fotógrafo de política em Brasília, tem um conjunto de fotos que conta a história política do Brasil nas últimas décadas. Na busca do que ama, Orlando foi quase linchado em uma manifestação de bolsonaristas em 2020. Enquanto seu trabalho ficará para todo o sempre, seus agressores serão apenas coadjuvantes irrelevantes na obra dele.


Sebastião Salgado esteve em diversas partes do mundo, fotografando a fome, o desalento, o desespero. Suas fotos valem mais que qualquer tratado para explicitar as mazelas da humanidade. Sebastião usou a foto para defender as causas dos índios, dos refugiados, dos injustiçados, além do meio-ambiente.


Claude Levi-Strauss, que tem uma importante obra antropológica sobre índios no Brasil, usava a fotografia como um elemento essencial para tornar sua tese mais forte e convincente.


Estou citando aqui 3 casos que, provavelmente, não entrariam nos top 10 fotógrafos do planeta. Nem por isso deixam de ter sua importância - basta uma foto para tornar seu fotografo imortal.


Cada foto representa um momento único na História e torna-se, portanto, irreplicável para todo sempre.


Os índios Cherokee acreditavam que a fotografia lhes roubava a alma. De certa forma, não estavam errados...



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