Back to the future

Atualizado: 12 de dez. de 2020


No final dos anos 70, a UFRJ era o sonho de consumo de todo jovem no Brasil. Encrustada nas Ilhas dos Macacos, mais conhecida como Ilha do Fundão, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que um dia foi chamada Universidade do Brasil, estava espalhada / integrada geograficamente a cidade do Rio de Janeiro desde 1920, faz fronteira com a imensa favela da Maré.

Naquele ambiente reuniam-se os estudantes da melhor qualidade intelectual de todo o país, alimentados pelo pior serviço de comida do mundo (tanto público como privado), num calor Sub-Saara, e abrigados em prédios em frangalhos, similares aos do outro lado da Cortina de Ferro da época.

A arquitetura da Universidade, concebida durante o período Vargas, foi intencionalmente pensada para não permitir que a 'estudantada' se encontrasse. O complexo de Engenharia, por exemplo, foi inaugurado no final da década de 60, ou seja, no meio da agitação estudantil global. A UFRJ não tem um campus de fato.


Em 1983 eu me formei em Engenharia Civil, e vivi uma disputa absurda para a definição do Patrono da Turma. O que deveria ser algo simples virou uma batalha e um debate de meses, quase chegando ao embate fisico. A discussão sobre os candidatos, que simbolizavam diferentes visões de futuro daquele grupo de 200 pessoas, que conviveram e se aturaram por 5 anos, explodiu como uma bomba de ressentimentos e frustrações.


Tinhamos 5 diferentes candidatos, representando todas as matizes possíveis, em um grupo da elite educacional brasileira de 22-23 anos de idade.


No final, tivemos dois candidatos no segundo turno: Antonio Ermírio de Moraes, apoiado pelos radicais que acreditavam que o Brasil precisava se inserir na modernidade do capitalismo, e o "Engenheiro Desempregado", apoiado pelos radicais de esquerda, que achavam que o futuro estava se mostrando incerto para quem se formasse naquele ano. Dado o fim do milagre brasileiro, acreditavam que cabia ao Estado fazer algo. A grande maioria, como sempre, precisou escolher um dos lados, já que seus candidatos ficaram no caminho.


Parece a eleição presidencial de 2018, não?


A briga foi tão grande que a sonhada festa de formatura, para a qual guardamos o nosso pouco dinheiro, por tanto tempo, "melou".


Acredito que aquele microcosmo, pouco representativo da sociedade como um todo, sintetiza o perfil daqueles que comandam o país. Ali se descortinou nossa incapacidade nacional de desenvolver um debate civilizado, de equilíbrio e de respeito.


Já se passaram 37 anos e, neste período, vimos a ascensão de um retirante nordestino a Presidência, trazendo todas as bandeiras dos excluídos. Nada reformou no Estado, porém ocupou posições na máquina pública, sem resolver as grandes questões.


Nesta quase 4 décadas, vimos o discurso da intolerância de costumes perder a vergonha, e se abrir por todos os meios possíveis, sequestrando, inclusive, o direito a ser patriota para uso exclusivo de uma minoria.


Passados 37 anos, sinto que aquele clima de fim de Faculdade, para mim, virou o clima do Inverno da minha vida.

O que me consola é: se não podemos deixar um país melhor do que recebemos para nossos filhos, talvez possamos deixar filhos melhores do que somos para nosso país. Essa agora é a Nova Utopia.

Na minha formatura, o Patrono foi o "Engenheiro Desempregado", e o discurso do Orador foi na linha de crenças dos apoiadores do Antonio Ermírio que, na época, era um exemplo de empresario. A cerimônia de formatura foi esquizofrênica, com discursos destoantes.

A nossa turma de Engenheiros Civis se direcionou para Bancos, Consultorias Empresariais, Estatais, Governo, e poucos realmente seguiram a carreira de Engenharia. O pais dos bacharéis, que estava se transformando em favor engenharia / ciência, acabou criando traders de divida pública, pagos a peso de ouro para alimentar de recursos a burocracia do Estado

O colega que cuidava da nossa poupança para a festa sumiu, e nunca mais se viu o dinheiro.

O Brasil de hoje já estava ali.



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