A Metamorfose Ambulante do Brasil

Em 1973, na maioria das casas brasileiras, as televisões ainda eram em preto e branco. Aos domingos, as famílias costumavam assistir, no "Fantástico", a dramas como o do desaparecimento do menino Carlinhos, insolúvel até hoje .


De repente, não mais que de repente, vemos algo inusitado na tela: 2 rapazes, com o rosto pintado, tocando violão e, entre ambos, uma figura magra, de saia, peito nu, rebolando e cantando, com voz de mulher, a paródia de uma música portuguesa - "O Vira". Na cena seguinte, apenas suas cabeças, cortadas dentro de pratos sobre a mesa, cantavam o poema de Vinicius: "Flor de Hiroshima".


No colégio de padre que eu estudava, em plena Zona Sul do Rio de Janeiro, não tinha outro assunto no dia seguinte. Na verdade, todos os discos esgotaram-se na própria manhã de segunda-feira.



O sucesso foi meteórico, e a sociedade, reprimida por uma ditadura militar, ficou estarrecida com a ousadia daqueles 3 rapazes, ousadia essa que se estendeu até ao nome do grupo: "Secos & Molhados".


Infelizmente, o grupo se desfez em menos de 1 ano, no auge do auge. Daquele sucesso todo, duas "heranças" são inquestionáveis:


⁃ o fato de que o grupo americano Kiss copiou a forma de maquiar o rosto que os Secos & Molhados inovaram; e


⁃ aquela figura magra, de quadril invertebrado e voz de contralto, que se transformou no personagem mais disruptivo da música brasileira de todos os tempos.


Ney Matogrosso nunca negou ser homossexual ou pansexual ou fluido, nunca foi publicamente discriminado, e nunca usou sua sexualidade como uma bandeira. Sua bandeira era a arte, na mistura de dança, luz, enredo, cenografia, e voz, que ele soube - e sabe - usar como ninguém. Ney cantou de tudo, de Cartola a Barão Vermelho. Ao conduzir sua vida com imensa dignidade, num ambiente complexo e preconceituoso, sempre teve suas opiniões ouvidas e respeitadas.


Ney Matogrosso nasceu com a mesma estrutura molecular dos grandes ícones do pop, tais como Mick Jagger e Steven Tyler, que chegam aos 80 anos com corpos de quase adolescentes, comprovando que, de alguma forma, o cosmos conspira em favor de algumas pessoas que vieram ao mundo para serem estrelas. Ney sempre lotou teatros, atraindo todo tipo de pessoas, que se encantavam com o universo paralelo de seus shows.


No início da década de 90, um grupo de garotos da periferia de São Paulo passou como um meteoro pela cena nacional. Os "Mamonas Assassinas" explodiram nas paradas de sucesso, também com uma paródia de música portuguesa o "Vira-Vira", mas tragicamente desapareceram, no auge do auge, dentro de um avião na serra de Guarulhos.


Os "Mamonas Assassinas" tiveram um impacto similar aos "Secos & Molhados", atraindo a atenção de todos. O destino não permitiu que Dinho virasse o sucessor do Ney.


É muito difícil envelhecer e manter a capacidade de se renovar. Ninguém construiu, na música popular brasileira, uma "persona" tão plural como Matogrosso. Raul Seixas criou a música e o conceito da Metamorfose Ambulante, mas o titulo pertence a Ney.


Numa entrevista recente, vi Ney Matogrosso vaticinando que a musica “O Tempo não Para”, de seu eterno amigo Cazuza, é perfeita para o momento atual:


“Transformam um país inteiro num puteiro, porque assim se ganha mais dinheiro.”


O senhor Ney Matogrosso, aos 80 anos, tem o direito, a moral, o respeito, e a história para terminar esse verso soltando o verbo.


Veja o vídeo 1 min abaixo:




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