Quando o cinema é alem do Paradiso


Gosto de cinema, e tenho total noção do impacto deste na minha vida.


O desenvolvimento do “streaming” trouxe um destaque ao gênero de “Séries”, gênero este que possibilita contar uma estória com mais tempo, além de permitir que se assista à qualquer hora, e na velocidade do freguês.


O filme tradicional está para o conto como a série está para o romance - logo, as séries são mais ricas e densas.


No momento atual, nós damos atenção ao título. No passado, o diretor era o destaque. Determinados diretores eram, inclusive, maiores que seus filmes. Poderia citar uma centena de grandes lendas do cinema, porém gostaria de me fixar em 3:

• Frederico Fellini - italiano

• Ingmar Bergman - sueco, e

• Woody Allen - New Yorker.


Não tínhamos as séries de hoje, mas tínhamos diretores fora de série, que produziam de forma serial.


Esses três diretores, na minha visão, eram similares na forma de retratrar a vida, os costumes, os sentimentos e as emoções humanas. Cada um representava a vida no contexto de suas culturas e de seus territórios geográficos. Todos eles falaram da infância, de amantes, de famílias, de alegrias, de história e desesperos. Todos tiveram seus atores favoritos, que se repetiam em muitos filmes, e quase que se identificavam com as obras destes.


Quem não sonhou em roubar um beijo de Giulietta Masina? ou Liv Ullman? ou Diane Keaton? Quem não gostaria de andar pela Via Veneto com Marcello (“La Dolce Vita”)? Quem não toparia uma partida de Xadrez com a morte (“O Sétimo Selo”)? Quem não sentaria no banco embaixo da ponte do Brooklyn para ouvir “Rapsodia in Blues” (“Manhattan”)?

Todos produziram momentos mágicos - não por uso de efeitos especiais, mas por diálogos ou silêncios avassaladores.


No mundo mediterrâneo nonsense do católico Fellini, na frieza intimista do protestante Bergman, e na paranóia nova-iorquina do judeu Woody, encontrei a essência do ser humano. Com esses 3 diretores aprendi que, para ser universal, é preciso retratar com profundidade sua própria vida familiar, assim como o que acontece na sua própria vizinhança.


Na sua auto-biografia, lançada em 2020, Woody Allen - o mais jovem dos 3, e o único que está vivo, demonstra um respeito e uma identificaçao enormes para com os outros 2, além de um sentimento de ser um diretor menor. A modéstia é parte da genialidade. A meu ver, os 3 eram modestos, porque só assim é possível produzir tanto, por tanto tempo, e em alto nível de qualidade.


A Netflix deveria fazer uma curadoria dos filmes desses diretores, e exibí-los como uma série de várias temporadas, chamada “A Vida”. Os filmes seriam agrupados por temas presentes na grande obras dos três. Por exemplo:


Infância: “Amarcord”, “Fanny & Alexander” e “A era do radio”;

Casais: “Ginger e Fred”, “Cenas de um Casamento”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”;

Psicológicos: “8 1/2”, “Gritos e Sussurros” e “Interiores”;


Etc...


São infinitas as possibilidades de trazer, para a contemporaneidade, a essência da humanidade - que é atemporal. Embora contrastando com outras teses de que o cinema deveria ser revolucionário, educativo e etc, acredito ser esta a missão maior do cinema.


O cinema não precisou de som para emocionar. A verdadeira escola, para mim, é a do velho Chaplin, para quem bastava um chapéu de coco, uma bengala, um pequeno bigode, e a mesma roupa surrada para criar obras-primas do drama e da comédia.



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