O Futuro que não queremos

Acredito que coincidências são importantes na vida, como se houvesse um fio condutor invisível, que liga tudo e todos no Planeta. Cresci acreditando que cenas de violência, e barbaridades contra os seres humanos, estavam do outro lado do mundo: Vietnã, Camboja, Filipinas, Oriente Médio, etc... Eu vivia num lugar "esculhambado", mas abençoado por Deus e bonito por natureza. Naquele tempo havia uma expressão comum: “para conhecer o futuro, basta viajar 10 horas para os EUA” Neste fim de semana, comecei a assistir um documentário da BBC de 5 horas, chamado "Once Upon a Time in Iraq". E me deparei com um sentimento de angústia, quando percebi que as cenas de barbaridades na tela da TV me lembravam, de alguma forma, o meu país. Às vezes o chador, o islamismo, as mesquitas, ... eclipsam a verdadeira raiz do problema, e nos fazem imaginar que o que acontece na terra do Aladin é um conto de um mundo distante. Não é. Tive a sensação angustiante de ver o caos, criado pós-Saddam, como algo próximo e possível de se descortinar no futuro de meu país. Coloco abaixo um vídeo de 1979, quando Saddam Hussein fez o expurgo no Partido Ba’ath, e assumiu o poder absoluto no Iraque. Vale ver. No dia que assisti ao último capítulo, vi que, no Brasil, numa coletiva de imprensa - sem direito a perguntas, o Ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, afirmava que iria investigar um servidor público de carreira, que fez uma grave denúncia, em detrimento de investigar a própria denúncia. Ameaçando o funcionário público da forma mais mafiosa que existe. Não faço aqui julgamento antecipado, mas observo a forma errada e inconstitucional de como um governo trata a coisa pública. Será que minha sensação de semelhança é mera coincidência? Ou será que pequenos atos de autoritarismo vão sendo tolerados, até que, um dia, se vê que o anormal virou banal? O documentário da BBC mostra como a invasão americana foi desastrada, e como a queda de Saddam tornou o país uma terra de ninguém. Vieram as milícias, pontos de checagem em cada esquina - nos quais se decidia a vida ou a morte de cidadãos, Al Qaeda, Isis, assassinatos em massa, intolerância, etc... Neste documentário, os militares americanos e jornalistas mostram um sentimento comum de terem participado de um erro histórico, os exilados iraquianos demonstram a dor de perderem seu país, e vítimas, inconformadas com o que o país se transformou, sendo abrigadas por mulheres de coragem. Alguns vão dizer que países como o Iraque só funcionam com um homem forte, sanguinário e ditador. Eu prefiro dizer que a existência de uma ditadura, nas suas diversas formas, leva ao colapso completo das instituições, ao ponto de tornar a sociedade inoperante, e os mecanismos de controle inexistentes. Esse é o risco quando um governo inverte suas prioridades, como investigar quem denuncia, em detrimento de investigar a denúncia. Talvez isso explique porque o documentário "Once Upon a Time in Iraq" me afetou tanto. Quando vi as cenas dos soldados americanos em Bagdá, eu me lembrei das cenas de nossas PMs na favelas do Rio. O desespero das mulheres, que perdem filhos e maridos, é idêntico ao das manchetes dos nossos jornais. Quando vejo as cenas de carreatas do Isis em Mosul, com pessoas com armas nas mãos voltadas para o céu, eu me lembro das pessoas no Brasil, fazendo "arminhas" com os dedos, ou as fotos de figuras públicas portanto armas. Quando vejo os projetos de armar a população no Brasil, o que me vem à mente, de imediato, são as imagens da terra-ninguém no Iraque. Realizei que algo mudou dentro de mim nos últimos tempos. A nossa miséria não é única e exclusiva no mundo, e não tem como imaginarmos que estamos imunes a uma barbárie ainda maior. O Iraque é uma Nação milenar. Localizado entre os rios Tigres e Eufrates, já foi chamado de Mesopotâmia, o berço da civilização. Se esta região, com todo esse passado e conhecimento, pode chegar à barbárie atual, nenhum país do mundo está a salvo. A democracia é um contrato entre pessoas de fé comum, que concordam em seguir determinadas regras, assim como os seguidores de Moisés têm fé nas tábuas da lei, dadas por Deus, que nunca ninguém viu. Construir a democracia, com seus pesos e contrapesos, seus mecanismos de representação e etc, leva séculos. Porém, para exterminá-la, basta um ato. O vídeo abaixo, no distante Iraque de 1979, tem uma cena que poderia acontecer também em Brasília. Ou não? Perguntar não deveria ofender. Espero que o futuro não esteja a 16 horas de voo

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