O Discurso dos Príncipes


Em 20 de janeiro de 2009, Mateus e eu estávamos navegando no Rio Nilo, observando o berço da Civilização, e paramos para assistir à posse do Barack Obama pela televisão.

Aquele era um dia histórico, quando um preto americano se tornava presidente. Ficou claro, para mim, a capacidade de expressão daquele homem. O discurso deste novo presidente parecia trazer uma nova era.

Tempos depois, porém, comparando palavra por palavra o discurso de Obama com o de George W. Bush, proferido anos antes, realizei que as diferenças eram mínimas.


Vejo 2 aspectos importantes nessa “semelhança”: (1) as instituições americanas são fortes o suficientes para impedirem que um presidente “possa” tudo, e (2) pessoas diferentes podem dizer a mesma coisa, criando um impacto completamente oposto.


O que diferencia o ser humano dos demais animais? A capacidade de contar histórias. O discurso humano é nossa maior virtude, capaz de criar nações, países, paixões, ídolos e etc. Nenhuma virtude supera a capacidade de se comunicar de um líder - como já dizia Chacrinha: “Quem não se comunica se trumbica ”.


A sucessão de Obama deveria ter sido uma mulher democrata, como assim votaram a maioria dos americanos. Porém, o sistema de castas eleitoral americano elegeu um apresentador de “reality show”, digno de piada, como mencionado no filme “De Volta ao Futuro III” e no desenho animado “Os Simpsons”.


A vitória de Trump sobre Hilary Clinton (sem nenhum elogio à ela) foi um capricho da História, que nunca avança em linha reta. A História sempre segue uma trajetória sinuosa e, para cada avanço, vivemos um certo retrocesso, como forma de fortalecer o passo para frente, e tornar o terreno mais firme.


Os 4 anos de Trump foram um suplício global. A saída de Donald Trump da Casa Branca, pela porta dos fundos, lembrou-me da saída do General Figueiredo em 1985. Ambos deixaram o governo com raiva, e sentindo-se injustiçados. No entanto, creio que, na verdade, sair pela porta dos fundos é uma forma que as pessoas vaidosas encontram para evitarem de mostrar sua própria vergonha.


Figueiredo entregou o que prometeu - principalmente, e em destaque, a abertura política. Porém, saiu por trás não por seu governo, mas talvez porque tinha consciência, como filho de exilado politico, de que todo o período do governo militar - que participou e representou no final - era uma Vergonha.


Trump deixou o governo pela porta dos fundos porque não entregou nada que prometeu, e deixou um planeta pior.


O discurso de Biden, em 20 de janeiro de 2021, difere de sobremaneira de seus antecessores porque, para falar coisas básicas da humanidade, teve que recorrer a Martin Luther King e a Santo Agostinho.


Biden chega como um sopro de alivio, de mãos dadas com Kamala, a candidata mais provável de ser a primeira mulher a sentar na Casa Branca, de um jeito ou de outro.

O discurso de Biden, simples e direto de como quem atende um paciente na UTI, é a busca de um novo enredo não só para os USA, mas para todo o mundo.


A grande lição do governo Trump é que não podemos aceitar o inaceitável. Como disse Luther King: “Nossas vidas começam a morrer no dia em que calamos sobre coisas que são verdadeiramente importantes.”


Quando reflito sobre o Brasil, sinto que nos falta, há décadas, um “contador de histórias” e um enredo que nos una.


Nas margens do Nilo, que visitei em 2009, estão templos milenares, cobertos de histórias escritas na forma de hieróglifos. O que aquelas paredes revelam é que, desde as cavernas, os contadores de histórias são essenciais. Nas paredes dos templos milenares do Nilo não encontramos jóias, mas temos o testemunho da maior riqueza que o homem pode produzir.

Os discursos de um lider são as paredes que suportam o teto que nos abriga ou que cai sobre nossas cabeças.





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