O Brasileiro em cujo reino o sol nunca se põe

Atualizado: 3 de mar. de 2021

Mateus me avisou que valia a pena ver o documentário “Pelé”, recém lançado no Netflix.


Confesso que estava com um pouco de má vontade, porque já assisti diversos filmes sobre Pelé. O que me chamou a atenção foi que meu filho, que nasceu no ano da Copa de 1994, sempre dizia que, no tempo de Pelé, o jogo de futebol era lento, e todos davam espaços impensáveis nos tempos de hoje. Se ele recomendava o filme, era porque havia algo de especial.


Ao longo da vida, Pelé sempre foi comparado com as duas figuras mais próximas do seu tempo: Maradona e Garrincha. A vida desregrada, e o fim melancólico de ambos, nunca me deixaram dúvida de que Pelé era superior como atleta e figura pública, além de ser o único jogador de futebol a ganhar 3 Copas do Mundo.


Pelé é sinônimo de Brasil em todos os lugares do mundo. Nunca uma marca nacional foi tão efetiva para atingir bilhões de pessoas. Em todos os lugares por onde andei, ao dizer que vinha do Brasil, a referência à ele era imediata. Mesmo tendo parado de jogar há 40 anos, Pelé ainda é mencionado por pessoas tão improváveis como um militar norte coreano, e um médico tibetano como constatei em 2016 nestes lugares.


Nenhum brasileiro foi tão reverenciado e bem recepcionado no mundo afora. Pelé foi recebido pela Rainha Elizabeth II, cumprimentado dentro do chuveiro do Maracanã por Bob Kennedy, e conheceu quem quer que ele se dispusesse a encontrar. Kissinger, o todo poderoso da política externa americana, construiu o New York Cosmos em torno de Pelé, com o objetivo de aproximar as diplomacias do Brasil e dos EUA pelo futebol, plano esse que foi detonado pelo Presidente Geisel, apesar dos esforços do Chanceler Azeredo da Silveira, e dos gols geniais de Pele nos EUA.


O Atleta durou 15 anos, mas Pelé, como embaixador do Brasil, existe até hoje, e é claramente subaproveitado pelo Itamaraty. Pelé sempre foi cobrado para ter uma participação mais ativa em causas diversas ou política. Não é fácil ser bem sucedido no Brasil.


Neste documentário, ao contrário dos anteriores, o Pelé deixou o Edson Arantes aflorar e ser o protagonista. O chamado "Atleta do século XX" permitiu-se mostrar com as fragilidades da idade, preso a uma andador. O brasileiro mais conhecido do mundo admitiu que a Copa de 70 tinha sido importante, acima de tudo, para ele - o que é normal, e também para seu país. Aos 80 anos, o verdadeiro mito brasileiro se mostrou ansioso e apreensivo diante de uma partida importante - como qualquer um, diga-se de passagem, e reconheceu que a vitória trazia, antes de tudo, uma sensação de alívio.


Edson Arantes mostra a sua convicção de que o melhor que podia fazer em prol do seu país era jogar futebol com excelência. Assim, dá um exemplo de que, se cada um de nós fizer bem feita a sua função, a sociedade ganha. Pelé deixa claro que aprendeu com seus pais que não somos melhores que ninguém, e que existem limites de competência até para os gênios.


No fim do filme tem uma cena rápida, na qual aparece, assistindo um jogo do Cosmos em NY, Muhammad Ali ao lado de Dondinho, pai de Pelé. Aquela rápida cena mostra que o pequeno Pelé, que jurou ganhar uma Copa do Mundo ao ver o pai chorar, ouvindo no radio a final de Brasil e Uruguai de 1950, tinha conseguido dar o maior presente que um pai pode receber: Estar no estádio do Cosmos, ao lado de uma lenda viva como Ali, vendo o filho ser aclamado no país mais importante do planeta - e que aprendeu a admirar futebol por seu filho, era concretizar o sucesso de uma vida de altos e baixos, acertos e erros, cujo significado em muito supera 3 Copas do Mundo.


Pelé da Netflix tem valor não porque traz alguma novidade sobre o genio Pelé, mas sim por mostrar que o Edson Arantes do Nascimento sabe que é como qualquer um de nós.



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