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Fersen Lambranho: de financista raiz a defensor da Amazônia

Atualizado: 12 de jan.

Entrevista realizada por Vanessa Adachi da Capital Reset em 11 de janeiro de 2023


O sócio da GP Investimentos fala dos motivos para sua 'conversão verde' e dá sua visão para o desenvolvimento sustentável da floresta


Dois anos atrás, Fersen Lambranho disse em entrevista que, se tivesse 16 anos, iria se ‘enfurnar’ no empreendedorismo amazônico. “O gold rush brasileiro pode ser o de dar para o mundo o conhecimento que a Amazônia tem”, afirmou à Folha de S.Paulo.


Pois, aos 61 anos – e sem que tivesse passado por um inusitado processo de rejuvenescimento à la Benjamin Button –, ele acabou por seguir seu próprio conselho.


Um mês atrás, vestindo o uniforme oficial dos ‘founders’ startupeiros – camiseta preta, calça jeans e tênis – Lambranho circulou durante dois dias inteiros pelo enorme galpão que abrigou, em Manaus, o Festival de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis na Amazônia (Fiinsa).


O sócio da GP Investimentos e da G2D assistiu atento aos painéis, abordou fundadores de startups pelas quais se interessou, deu conselhos e almoçou nas mesas coletivas, entre lideranças indígenas, dirigentes de ONGs, empreendedores da região e investidores. 


Foi também um dos painelistas da abertura e causou polêmica ao afirmar, no estilo sem papas na língua que o caracteriza, que nenhum fundo de venture capital brasileiro sabe trabalhar na Amazônia. 


Ainda no palco, ensaiou uma revisão histórica do seu período como acionista e presidente do conselho da Telemar nos anos 2000, ao afirmar que na época foi contra a instalação de orelhões em aldeias indígenas – algo obrigatório segundo as regras de universalização da telefonia trazidas com a privatização da Telebrás – porque o investimento não se pagava.


Questionado pelo Reset sobre o que teria feito de diferente, disse que deveria ter olhado a questão sob a ótica de conectar e incluir a região.


“Deveria ter buscado dinheiro do governo para fazer um projeto melhor, quer fosse de cobertura digital da Amazônia, quer fosse nas escolas públicas. O tal do Fust [Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, recolhido sobre a receita das empresas de telefonia, com a finalidade de levar acesso à telefonia e à internet para regiões isoladas do país] está aí e ninguém consegue usar até hoje. Eu tinha que ter gasto mais energia para liberar o Fust, ter um projeto para isso.” 


A conversão de Fersen a um capitalismo verde é recebida com um misto de surpresa, curiosidade e desconfiança, tanto na Faria Lima como por quem milita na agenda do desenvolvimento sustentável há bastante tempo.


Impossível dissociá-lo da fama de financista sangue no olho, afeito a jogadas arrojadas, cultivada ao longo de décadas como CEO da Lojas Americanas e como sócio da GP Investimentos, onde participou de negócios como a criação da Telemar, na privatização da Telebrás.


“O tempo vai dizer se o compromisso dele com essa agenda de desenvolvimento sustentável da Amazônia é pra valer”, comenta o dirigente de uma ONG que tem interagido com ele e esteve no mesmo evento de Manaus.


Além de falar e ouvir, Lambranho também tem feito alguns investimentos pessoais. O primeiro foi um aporte na Moss, startup que tokeniza e negocia créditos de carbono. O segundo foi na Amaz, aceleradora de negócios de impacto da Amazônia, liderada por Mariano Cenamo, a quem tem mentorado.


Em entrevista ao Reset, Lambranho falou sobre suas motivações para se enfurnar na agenda de empreendedorismo amazônico, sobre os desafios que enxerga e o caminho para desenvolvê-la.


Você falou sobre o seu tempo como presidente do conselho da Telemar e do que teria feito de diferente. Mas naquela época você não tinha uma visão para a Amazônia, tinha?


Não, não tinha. E, se eu tivesse, iam me matar, está certo?


E o que mudou?


Acho que em algum momento eu consegui entender que de fato a floresta é uma coisa desenvolvida pelo homem. A floresta foi plantada e, por ter sido plantada, consegui entender em algum momento da minha vida, depois de ler diversas coisas, que a atuação do ser humano na constituição da floresta é muito mais importante do que eu imaginava.


Nós não temos pirâmides porque não temos pedras. As nossas pirâmides são as nossas florestas, que foram trabalhadas pelo homem. Esse conhecimento existe e está aí e o que mais me impressiona é a resiliência dos povos originários, a capacidade que eles tiveram de se manterem vivos, de manter suas línguas. Eu sei que muita gente morreu e muita coisa desapareceu, mas tem 200 línguas faladas ainda. A resiliência disso é uma prova de força e conhecimento profundos, enormes.


E, na hora que você compreende isso, você pensa: a vida que a gente leva nas cidades é uma vida muito newtoniana, muito Revolução Industrial. Foi construída nos últimos 200 anos de uma forma artificial e não sustentável.


E a resposta da sustentabilidade está em retornar a ser mais próximo da natureza, tirando proveito da tecnologia que a gente desenvolveu. Eu hoje tenho menos necessidades do que tinha no passado de construir coisas, botar prédios de pé.


Outra coisa que aprendi lendo o Mancuso [Stefano Mancuso, botânico e escritor italiano] é a inteligência que existe na flora, que eu não tinha noção. A gente nunca pára para pensar que as plantas são seres vivos, que têm inteligência, que vivem em comunidades e que se protegem. E mais: hoje você vê teorias de arquitetura que buscam projetar prédios que reproduzem as estruturas de plantas porque elas são capazes de capturar luz, responder às questões climáticas com mais eficiência.


Então, ao perceber isso, comecei a pensar: como se faz para tirar proveito desse conhecimento todo? Se você conjugar a tecnologia digital, é possível construir alguma coisa, é possível reflorestar boa parte do que se perdeu para as cidades. E esse é o caminho pelo qual a Amazônia deveria estar contribuindo para o mundo.


O que que você vê de concreto nesse sentido?


É o mindset [que precisa mudar]. Na hora em que as pessoas começarem  a pensar desse jeito, a criatividade humana é enorme. E, como em qualquer processo de inovação, as ideias vão vir naturalmente.


Se você pensar: eu tenho que desenvolver a Amazônia, então eu tenho que pegar o modelo que estamos acostumados a usar e aplicar aqui, nós vamos simplesmente destruir a floresta. Mas se a gente pensar o contrário: dado que o homem vive próximo da natureza, vive próximo dos outros animais, como pode se viver dentro deste novo paradigma? Aí a criatividade humana começa a funcionar. E aí, num mundo que está buscando soluções sustentáveis e verdes, talvez você encontre dinheiro e gente com capacidade de investir em novas soluções de vida. 


Trazendo isso para a sua realidade, o que você tem feito?


Lá na GP Investimentos, tudo que a gente faz na G2D tem um caráter relacionado à sustentabilidade. E não tem empresa jovem que não nasça com essa pegada. A maior parte do nosso portfólio é a Craftory. 


Durante a pandemia, comecei a estudar mais esse tema, escrevi artigos, e isso gerou uma série de contatos. Vi dois caminhos: um caminho do carbono, que foi investir na startup Moss para ajudar a aumentar o uso da tecnologia, mesmo sabendo de todas as restrições que existem na questão do carbono. E também investi na [aceleradora de impacto] Amaz, para ajudar o Mariano Cenamo a desenvolver um projeto de empreendedorismo na Amazônia, com todas as dificuldades que existem. 


É isso. Estou num estágio super iniciante, ainda experimental, de entender como se faz.


E o que você entendeu até agora? O que é possível fazer, quais as dificuldades?


A primeira coisa é que precisa ter um esforço de educação. Os agentes econômicos brasileiros, os empresários, os executivos, da mesma forma que começaram a dar atenção nos anos 2000 ao empreendedorismo e transformaram isso numa força muito grande no Brasil, deveriam mentorar e ajudar a desenvolver um processo de inovação dentro da Amazônia. 


Mas um processo de inovação, de criatividade, diferente do empreendedorismo que vimos começar nos anos 2000, que visava criatividade e inovação em negócios disruptivos na forma de viver. 


Aqui é diferente. Trazer capacitações e conhecimento para ajudar a criar uma nova realidade que se baseie no conceito de harmonia entre fauna, flora e as pessoas e uma nova forma de vida. Se a gente não tiver um movimento de pessoas, de brasileiros, nunca vamos ter o apoio estrangeiro no volume e velocidade esperados.


Mas do que você está falando exatamente?


Em vez de um cara ficar mentorando um jovem que está fazendo uma startup em São Paulo, que é um ecossistema de empreendedorismo desenvolvido hoje em dia, deveria vir mentorar uma comunidade indígena. Ou os ribeirinhos, as pessoas daqui.


Eventualmente, são projetos menos glamurosos, mas que podem, nessa conjugação de esforços, trazer soluções melhores. Principalmente na medida em que você tem o digital como meio para facilitar tudo. É possível atingir qualquer coisa no mundo digitalmente. Criar educação para os 28 milhões de habitantes dessa região sem precisar ter professor aqui, sem precisar ter universidade aqui. É possível dar saúde de forma remota.


Como se faz para uma região como a Amazônia continuar a existir e eventualmente crescer em área e extensão? Quais os modelos possíveis e viáveis para que isso aconteça? Em detrimento do modelo conhecido, que é passar uma estrada e fazer uma cidade. No Brasil, as pessoas deveriam se esforçar para isso, porque a maior riqueza a nível global que o Brasil detém é a sua biodiversidade.


Você vê alguém fazendo isso?


Não vejo ninguém. 


Você está mentorando alguém?


Todas as pessoas que investiram no fundo da Amaz estão dando a primeira contribuição para isso. Porque é um fundo com o objetivo de ajudar empreendedores na região amazônica, feita por gente que está aqui há décadas. 


E isso faz total diferença, porque eles têm como base o fato de que não querem transformar isso aqui numa coisa que seja entendida pelos mercados. Querem buscar uma solução do que precisa ser feito e, uma vez criada essa solução, os mercados vão ter que entender.


Ou seja, resolver os problemas com um olhar local.


Isso. E é muito mais difícil, muito mais complexo. A lógica do venture capital tradicional não funciona aqui e não vai funcionar. Como a lógica do venture capital no Brasil nos anos 2000 também não funcionou. Veio a funcionar na medida em que você desenvolveu uma cultura de empreendedores. Veio a funcionar agora, mais recentemente. Mas essa cultura foi criada com muito esforço, muito trabalho, com muita gente doando esforço e energia, pensando.


Aqui na Amazônia ainda não tem regra, as regras precisam ser desenvolvidas. E se trouxermos a regra de fora vai ser desastroso. Como foi desastrosa a Transamazônica, como é desastrosa a urbanização que está se fazendo aqui, como foi desastroso trazer o gado, fazer a mineração clandestina.


E o que é diferente na região amazônica como ponto de partida para o empreendedorismo?


O timing é outro, a qualidade educacional das pessoas é mais baixa, o tempo de maturação dos negócios é maior, e o desafio de fazer uma coisa de impacto de verdade nesse ambiente aqui é muito maior. Muita coisa tem que ser inventada. Não dá para ir nos Estados Unidos e copiar o Rappi americano, o Uber.


Tem que pegar quem está fazendo estudos científicos no mundo inteiro e tentar atrair as pessoas e precisa de governo para dar infraestrutura. E na minha opinião, infraestrutura é informação, conexão. Não é estrada. 


E tudo isso é mais uma questão de prioridade do que de visão. O Bolsonaro tinha uma prioridade, que era destruir o arcabouço regulatório que protegia a população brasileira contra armas, que protegia a floresta. 




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