Escravidão que nos habita e nos define


Publicado no Jornal Folha de São Paulo 2/8/2022


 

O Brasil foi construído em torno dos seus vastos recursos naturais desde o século XVI. Nada supera a relevância global da nossa biomassa. Na criação deste país, o ser humano foi relegado a um plano secundário. Os povos originários, que se integravam à floresta numa simbiose, foram dizimados, impedindo que fossem a base da população.

 

Portugal queria criar uma nova China do ponto de vista de tamanho de mercado. O pragmatismo português levou a sociedade a ser talhada para os desafios de uma terra em que “se plantando tudo dá” e que devia ter ouro e prata. 

 

Em sua trilogia Escravidão, o jornalista Laurentino Gomes deu uma grande contribuição para a compreensão desse processo. A partir da escravidão, o autor explica a formação nossa cultura.

 

No segundo livro da trilogia, quando aborda o período do ouro, fica evidente que o Estado português era implacável com os escravos e com os empreendedores. A leitura é angustiante para quem faz negócios no Brasil de hoje.  O terceiro livro trata do século XIX, marcado pela independência e pelo reinado tropical, que foi sustentado por uma oligarquia escravocrata. A leitura é angustiante para quem conhece o Brasil político hoje. O projeto de país independente não contemplou a maior parte da população, que era escrava.

 

Aos 200 anos de independência, o Brasil está dividido. Existe um confronto até familiar em busca de respostas sobre o que somos, o que queremos e qual o papel do Estado. Seria o Estado que já prestou serviço de caça de escravos? O Estado que não educa sua população e que não busca soluções para a fome? O Estado que faz dos seus cárceres a escola da marginalidade? São muitas as perguntas.

 

No Brasil de hoje, há quem visite um quilombo e diz que viu gente pesando arrobas e que não serve para procriar; uma série de podcast como “A mulher da casa abandonada”, revela casos atuais de escravidão, assim como o filme 7 Prisioneiros, de 2021.

 

Nosso país é plural, desigual e cruel. A trilogia Escravidão me faz pensar que uma nação é definida pelo seu elo mais vulnerável socialmente. Logo, a base da pirâmide social seria a nossa melhor definição. Uma nação cuja maioria do seu povo é escrava, atrasada será. Uma nação na qual a maioria do seu povo é analfabeta, inculta será. Onde metade dos habitantes não tem saneamento, sem saúde será. Nestes 200 anos de independência, é preciso assumir o que somos.

 

Raça não define capacidade ou inteligência. O valor está no cérebro humano, devidamente estimulado. Nossa maior riqueza são os 200 milhões de cérebros do Oiapoque ao Chuí. Porém, nossa maior desgraça é o desperdício desses cérebros. Não é uma questão só de racismo ou de misoginia, é também lesa-pátria.

 

Nasci no Leblon, onde antes existia um quilombo. Tive uma avó preta de afinidade, que me deu muito amor e exemplo de dignidade. Cresci achando que no Brasil não tinha racismo. Sou neto de imigrantes que nunca viveram a escravidão, mas minha família absorveu os cacoetes de um país onde a servidão é normal. Ninguém no Brasil está imune à essa herança. Essa chaga não vai curar, se não for lavada e esfregada com muita força e por todos, sem exceção.

 

A trilogia Escravidão é vital para refletirmos sobre o passado que nos habita e que nos impede de progredir. Precisamos reconhecer que somos uma nação de mestiços e pretos, imigrantes, índios e brancos. Somos a maior experiência de miscigenação do planeta.

 

O projeto de país passa pela valorização das pessoas. Que tal começarmos por um estado que garanta dignidade humana e cidadania para todos a começar disponibilizando saneamento, segurança, saúde e uma educação do século XXI. Um projeto de longo prazo, mas urgentíssimo, e sustentável como nunca se tentou.


PS. Em parceria com Rubem Lambranho e Mateus Lambranho

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