Antes que o Dia Não Acabe


Era 19-01-1982, eu estava em Madrid com uma mochila nas costas, quando consegui um telefone público quebrado para ligar para casa. Naquela época, um telefonema internacional era caríssimo. Na ligação, soube que Elis Regina tinha morrido, e que receberia um exemplar da Revista Veja que minha mãe havia mandado para um endereço em Paris.


Viajar pela Europa com um passe de trem era um luxo, naquele tempo em que tudo era pouco acessível. Viajar à noite tinha a vantagem de se economizar uma noite de dormida.


Por ter vivido este tempo, talvez seja a razão de ser tão sensível à uma trilogia de filmes sobre um casal que se conhece em um trem de Budapeste a Viena.


O primeiro filme, de 1995, chama-se “Antes do Amanhecer” (“Before Sunrise”). Ele americano e Ela francesa resolvem passar um dia juntos em Viena, já que ele tinha um vôo para os EUA na manhã do dia seguinte. O roteiro é perfeito, porque estas situações únicas de encontros realmente acontecem quando se é jovem, sem lenço e sem documento. Acontecem quando não se tem quase passado, e o futuro está muito distante. O “small talk” é interessante quando se tem 23 anos, e até mesmo profundo. Mochilando, sem cama certa ou mesmo banho, a paixão parece que aflora mais rápido. Amizades de viagem são profundas mas efêmeras.


Em 2004 ambos os atores, agora com 32 anos de idade, voltam à cena com o “Antes do Por do Sol” (“Before Sunset”), e encontram-se em Paris. O tempo já deixou marcas nos seus rostos, além de compromissos com a vida. Os dois sabem que aquele dia em 1995 foi especial, e revivê-lo, mesmo que por poucas horas, é sempre excitante. Os diálogos são perfeitos e, provavelmente, vc se reconhecerá em algumas situações. Todos temos, dentro do coração, pequenas caixinhas onde guardamos as jóias de momentos. Essas caixas abrem-se, às vezes, apenas com cheiros, imagens, palavras e qualquer coisa que nos remetam à momentos especiais da vida. Aos 32 anos, Ela já sabe como a abelha rainha dança para dar o ápice e a morte ao zangão.


Em 2013 completam a trilogia com "Antes da Meia-noite" ("Before Midnight"). Aos 41 anos, casados, com filhos, e em férias de verão numa ilha grega, vivem os dramas típicos de alguns casais: família, trabalho dele e a vontade de trabalhar dela. O relacionamento a dois é uma construção diária, e dá um trabalho que só o amor justifica.


A trilogia é o retrato da geração com 50-65 anos de idade que lidera o mundo atual. Portanto, se quiser nos entender, assista aos 3 filmes, prestando atenção nos diálogos. A vantagem adicional é que ambos os atores representam o que são de fato, no momento de tempo de cada filme.

Assistir na sequência, como se fosse uma série, tem o mesmo efeito daquelas câmeras dos naturalistas que ficam filmando o pico das montanhas, ao longo de um ano, para depois passarem o filme rapidamente, de modo a conseguirmos ver como evolui a natureza ao longo do tempo e estações.


Eu confesso que, às vezes, tenho a dúvida se minha admiração por esta trilogia é por uma questão antropológica, ou nostálgica, ou simplesmente porque sou um romântico incorrigível.

Antes que eu me vá preciso dar este testemunho: A maior conquista da vida é a jornada que vc faz, construindo relações com pessoas que enriquecem o seu ser, e são a matéria-prima para formar seu grande patrimônio, que se revelará nos atos futuros de seus filhos.



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