A voz que canta uma canção Se for preciso canta um hino

O sentimento da liberdade, assim como o do otimismo, é uma invenção, uma abstração, do ser humano. Por serem intangíveis, dependem de palavras, gestos, olhares,… de modo que se estabeleça um “clima”, que traduza um sentimento bom ou ruim.


A liberdade, ou o poder de um cargo público / privado, também é uma abstração, e pode ser incontestável ou não, pelo simples fato de que a maioria a aceita como verdadeira. Pode, portanto, sucumbir com um piscar de olhos.


Nasci em um tempo no qual a liberdade do nosso povo estava sequestrada, e o bálsamo para a alma vinha das artes: cinema, teatro, livros e, principalmente, música.


Na música, determinados artistas se “especializaram” em embutir códigos, mensagens subliminares, e metáforas. Ao ouvirmos e cantarmos suas músicas, nós as esmiuçávamos, em busca de tais metáforas, famintos que estávamos tanto por algum sentimento de liberdade, como por uma pitada de vingança contra o coturno que pisava, metaforicamente, nas nossas gargantas …


Lembro de Gal Costa, em 1968, cantando, com um grito esganiçado e quase em transe:


“É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte”


Dez anos depois, em 1978, Chico Buarque - já em ritmo de distensão política, e no ocaso do regime militar, editou uma música que, embora feita para o General Costa e Silva, só foi gravada quando o último general assumiu:


“Hoje você é quem manda, falou, tá falado

Não tem discussão, não

A minha gente hoje anda

Falando de lado e olhando pro chão, viu?

Você que inventou esse estado

Que inventou de inventar toda a escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar o perdão

Apesar de você amanhã há de ser outro dia”


Hoje, como tudo é explícito e escancarado, parece que o jogo de palavras perdeu sua utilidade.


Se, por um outro lado, tudo pode ser dito, tem-se de tomar muito cuidado com o que se vai dizer. As patrulhas ideológicas estão implacáveis. O radicalismo cultural chegou ao ponto de bloquear a criatividade.


O conceito de liberdade está confuso. Vejo gente preconceituosa clamar por liberdade para exprimir seu preconceito, e incitar violência. Vejo sinais de quebra de liberdade em todos os lugares.

Vejo um presidente americano clamar pela sua liberdade de mentir, enquanto que, do outro lado, vejo empresas privadas calarem um presidente americano. Os limites estão fluidos, e a humanidade parece que perdeu o senso do bom debate.


Qualquer ideia deveria ser exposta, desde que não causasse mal a um terceiro. Toda ideia deveria ter a oportunidade de ser debatida. E só. Do debate de ideias, mesmo que estapafúrdias, é que se evolui em conceitos.


Eu nasci num mundo onde o homossexualismo dava cadeia, e fumar era sinônimo de glamour. Hoje, tudo se inverteu.


Conceitos não são eternos, e a frase “Não concordo com você, mas defenderei até a morte o seu direito de ter uma opinião, mesmo que contrária à minha” é perfeita.


Neste “caldo”, sinto que o sentimento de liberdade está sendo minado por lideranças que nada têm a oferecer, além de perseguição à imprensa, à arte, às idéias e à modernidade.


Não me espanta que, neste cenário, comece a surgir alguma resistência através da música, e por personagens que conhecem a linguagem do “tudo dizer sem deixar o ogro perceber”.


Ney Matogrosso, do auge de seus bem vividos 80 anos, lançou recentemente um belo disco chamado: “Nu com a minha música”. O titulo do disco vem de uma musica de Caetano Veloso, de 1981, no qual um trecho cai como uma luva nesses tempos de 2021:


“Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor

Vertigem visionária que não carece de seguidor

Nu com a minha música afora isso somente amor

Vislumbro certas coisas de onde estou”


Caetano, por sua vez, acabou de lançar o disco “Meu Coco” - o primeiro disco original em 9 anos.


Ao completar 80 anos, o baiano fez um disco que debate o nosso tempo com a vitalidade de alguém de 30 anos. Um disco crítico, corajoso e contemporâneo, e que tem o elemento fundamental da metáfora típico dos tempos da resistência. Chamo atenção para a letra de “Não vou deixar” :


“Não vou deixar

Não vou, não vou deixar você esculachar

Com a nossa história

É muito amor, é muita luta

É muito gozo, é muita dor

E muita glória


Apesar de você dizer que acabou

Que o sonho não tem mais cor

Eu grito e repito: Eu não vou


O menino me ouviu e já comentou

O vovô tá nervoso, o vovô

Nervoso, teimoso, manhoso”


O “vovô” de todos nós, Caetano expressa na música, na letra e, principalmente, nos gestos - rugas, caretas, movimento facial (ver vídeo a seguir), o senso da resistência plena / absoluta e da eterna busca da verdadeira liberdade / debate que nos faz civilizados. Caetano nos lembra que é preciso estar atento e forte.




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