A nova velha aliança

Atualizado: 12 de dez. de 2020


Em agosto de 1998, o monopólio da Telebras foi explodido em mais de 16 empresas de telefonia de diferentes tamanhos. O Brasil parecia entrar na modernidade, com a maior privatização da sua História.


Considero muito bem sucedida a privatização de Telecom no Brasil, apesar de uma legislação extremamente restritiva que, até hoje, exige telefones públicos num país onde, para se ter um telefone celular, as pessoas até deixam de comer, principalmente nas regiões mais carentes.

Naquela época, o setor de Telecom do Brasil era nanico, com 4 milhões de linhas celulares, e posse de telefones registrada na declaração de Imposto de Renda, como um bem de valor. Sob o ponto de vista tecnológico, o setor era dominado por fornecedores tradicionais - Qualcomm, Nokia, Alcatel e demais americanos ou europeus.

Naquele mês de agosto, o Sr Frank Fan desembarcou sozinho no Galeão, com uma mala de mão, sem falar uma palavra de português, e tendo deixado sua família em Shenzhen. Vinha como “homem” da desconhecida Huawei, companhia chinesa de telecom.

Em todos os eventos de Telecom, lá estava ele, pequeno e magro, com um sorriso no rosto, muito gentil, e cara de quem representava uma tecnologia de segunda categoria.

As empresas americanas (MCI, por exemplo), que compraram a Embratel e uma série de outras companhias menores de telefonia móvel, não foram felizes, e falharam em todas as empreitadas. Esse não foi o caso dos Espanhóis, Italianos, Mexicanos, e de alguns brasileiros que conseguiram se estabelecer no mercado.


Porém, o grande vencedor de todo o processo, incluindo fornecedores, foi a Huawei. A empresa conquistou o mercado brasileiro, usando o poder de barganha do mercado chinês, para exigir que os grandes fornecedores do ocidente abrissem seus projetos de tecnologia. Utilizaram-se da escala chinesa para abastecer o Brasil, como se o país fosse mais uma região da China. Tiveram sensibilidade para entender as carências da economia brasileira, e deram condições de crédito e prazo, necessários à um país sem acesso a fontes de capital de de longo prazo


Deixei de participar do setor em 2006 e, naquela época, a Huawei já era o maior fornecedor do país.


Soube que, pouco depois, Mr Fan foi para outro país. Como um soldado do exército imperial, seguia em sua jornada de desbravador, até conquistar o direito de voltar para a família. Nao foi diferente de um funcionário da Companhia das Indias, no século XVII.


O espaço que a Huawei conquistou no Brasil, naquele tempo, foi contra tudo e contra todos. Inclusive contra o preconceito deste que aqui vos escreve. Nada resiste ao trabalho árduo e à força de vontade.


A vitória está sempre do lado de quem tem uma visão de longo prazo. Agora, os EUA e a União Europeia estão debatendo questões de segurança de informação relacionadas à infraestrutura da Huawei, que está esparramada pelo planeta. Fica a questão: é novidade? Evidentemente que não, e nos cabe refletir o "porquê".


O texto de Marcelo Tognozzi, abaixo publicado no Poder 360, fala sobre a relação EUA, America Latina e China. Vale ler.

A cara nova da velha Aliança, por Marcelo Tognozzi Tanto faz quem vencerá eleições EUA consideram China ameaça Trump ou Biden devem manter política firme Joe Biden, ex-vice-presidente dos EUA, e Donald Trump, o atual presidente. Os 2 disputam a Presidência em 3 de novembro Gage Skidmore e Shealah Craighead via FlickrMARCELO TOGNOZZI 24.out.2020 (sábado) -


Trump reeditou a velha e surrada Aliança para o Progresso, lançada há 60 anos como ferramenta dos Estados Unidos para impedir o avanço do comunismo na América Latina, prometendo dinheiro para cuidar dos pobres e miseráveis. Em agosto de 1961, o então presidente John Kennedy reuniu representantes das repúblicas americanas em Punta del Este e mandou passarem a limpo um documento previamente rascunhado por seus assessores da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). No dia 25 daquele agosto, o presidente brasileiro Jânio Quadros renunciou, João Goulart assumiu e, menos de 3 anos depois, os militares tomaram o poder. O day after da Aliança, desfeita por Nixon em 1969, trouxe militarização dos governos do Conesul, o aumento da pobreza e a crise cada vez mais aguda provocada pelo choque do petróleo. Em 2018 o governo Trump lançou o programa América Cresce, versão da Aliança para o Progresso no modelito do século 21. Já despejou bilhões de dólares em países da América Latina e Caribe bancando projetos de infraestrutura, ciber segurança e combate à corrupção, tudo supervisionado por órgãos como o Departamento do Tesouro, Departamento de Comercio, de Energia e agências como a USAID, a Agência dos Estados Unidos para o Comércio e Desenvolvimento (USTDA) e a Corporação para Investimento Privado no Exterior (OPIC). Os Estados Unidos não brincam em serviço. A visita do assessor de Segurança Nacional Robert O’Brien a Brasília na 3ª feira (20.out.2020), cujo resultado mais visível foi a distribuição de caneladas por Bolsonaro na vacina chinesa CoronaVac, no governador João Doria (seu futuro produtor) e no ministro Pazzuelo (ex-futuro cliente), faz parte de uma ampla estratégia para barrar a influência chinesa no continente como aconteceu há 60 anos com a finada União Soviética. Em plena pandemia, com todos os PIBs despencando e a Europa de muletas, solapada pela segunda onda de coronavírus, O’Brien tem trabalhado num ritmo alucinante. Em agosto, ele esteve no Panamá durante apenas 3 horas para uma reunião com o presidente Nito Cortizo. Assunto: combater a corrupção e desinfetar o sistema financeiro para impedir lavagem de dinheiro pela turma de Nicolás Maduro. O’Brien e seu time comandam uma força-tarefa no Panamá, que investiga inclusive um mandatário suspeito de tráfico de drogas. Quem quiser entender perfeitamente o discurso anti-China do presidente Bolsonaro basta dar uma conferida no América Cresce. Por exemplo, em relação ao 5G os Estados Unidos ampliaram uma tal Aliança para Conectividade Digital e Ciber segurança (DCCP) e pretendem com isso barrar a entrada dos chineses em mercados como o do Brasil, um dos maiores do mundo, com mais de 200 milhões de smartphones. Um dos alvos dos Estados Unidos é a empresa chinesa Huawei, gigante da tecnologia que briga para instalar no Brasil seus sistemas 5G e pela qual o presidente brasileiro tem zero simpatia. A contrapartida ao América Cresce tem sido o programa chinês A Nova Rota da Seda. Os dois têm iniciativas e inspirações muito parecidas. Seus objetivos são ganhar mercados para empresas que produzem não somente bens de consumo, mas principalmente conhecimento. Ambos querem investir em infraestrutura, que é o que emperra a vida das empresas neste lado do mundo. A China até há pouco tempo era famosa pelas cópias de grifes da moda e todo tipo de produto, boa parte dos quais acabava nas mãos dos ambulantes ocidentais. Em Paris e Nova Iorque estes camelôs vendiam desde relógios Rolex e bolsas Louis Vuitton a eletrônicos falsificados. Esta fase está acabando. A China não apenas cria e fabrica seus próprios produtos, como também se tornou uma produtora de conhecimento e inovação. Consegue fazer isso com preços altamente competitivos. Adotou uma política inteligente ao firmar acordos de cooperação com a União Europeia pelos quais seus cidadãos poderiam se estabelecer com pequenos negócios. Hoje, em países como a Espanha, os chineses dominam as lojinhas que vendem bebida, tabaco, snacks e comida pronta e também aquelas que vendem todo tipo de mercadoria como flores artificiais a ferramentas, material de construção, cadernos, canetas, chinelos e produtos de limpeza. Não é preciso dizer que 99,9% dos produtos são chineses, fazendo com que estes comerciantes mantenham um vínculo permanente com seu país de origem. São 5 mil anos fazendo comércio. Com a política de criar pontos de venda na Europa, foram tiraram do mercado os árabes, antes tradicionais neste segmento de mercado, e a quantidade de chineses e seus familiares vivendo de pequenos negócios é de quase 300 mil somente na Espanha, a maioria pessoas em idade produtiva. De uma coisa todos podem estar certos: tanto faz Trump ou Biden sentados naquela cadeira da Casa Branca. A China não deixará de ser considerada como um adversário poderoso, pronto para tomar um naco dos Estados Unidos, numa era em que o poder das nações passa pela sua capacidade de produzir conhecimento e inovação. O poder militar continua sendo importante, mas não com as armas tradicionais. Numa guerra pra valer um vírus causa mais estrago que qualquer bomba nuclear. Hoje, ninguém mais duvida disso. A nova edição da velha aliança para o progresso repete o ingrediente ideológico, já gasto e desbotado, num mundo onde as pessoas desejam a modernidade a qualquer preço. Em Cuba, adolescentes desfilam de tênis Nike e iPhones de última geração contrabandeados de Miami. Fazem qualquer coisa para conseguir um destes. Aqui no Brasil, o menino da comunidade não quer saber se o smartphone é chinês ou americano, embora os chefões do tráfico e a milícia não abram mão de armas americanas como os fuzis M-16 ou as metralhadoras Browning de 600 tiros por minuto capazes de derrubar helicópteros. Em tempos de pandemia, com a Europa derretendo e a recessão instalada na América Latina, podemos nos preparar para uma guerra econômica cada vez mais dura entre China e Estados Unidos. O empobrecimento geral do planeta é ao mesmo tempo uma desgraça e uma oportunidade. Tudo depende de como se enfrenta o problema. O Brasil, como grande produtor de energia, alimentos e tecnologia agrícola, tem tudo para sair da crise maior do que entrou. O caminho do sucesso é um só: menos ideologia e mais diplomacia.



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